Projeto
Projeto (críticas e pensamentos)
O Projeto que aqui apresentamos é realizado como um pequeno laboratório de Arquivos, desenvoltura que não deixa nunca de pensar as razões e desrazões dos ensejos de memoração. Chamamos laboratório por constituirmos um espaço/tempo de investigação de como podem ser formados os arquivos, experiência que incorpora também a investigação de o que pode ser um arquivo… O Projeto foi proposto por A Arquivista e Cristina Ribas em parceria com o Ponto de Cultura Museu da Maré, especialmente por que aqui se encontra o Arquivo Dona Orosina Vieira (ADOV), organizado pela ONG Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (CEASM). Dá-se então o nome de “Arquivos do Presente” a este novo-quase-arquivo que surge como somatória (em dimensão material e situacional) dos dois Arquivos que vemos articulados: o próprio Arquivo Dona Orosina Vieira, que guarda boa parte da história do bairro, e o Arquivo de emergência, pesquisa em arte no Brasil organizada na forma de Arquivo.
Para elaborar a aproximação entre estes dois Arquivos foram concebidas uma série de ações que articulam de diversas formas a participação em tais Arquivos, o que chamamos também de “ativação”. Isto ocorre por duas necessidades: uma, de animar o espaço de acontecimento do Arquivo de emergência a partir da exposição de seus materiais, agregando o público interessado em atividades de leitura coletiva e desta forma estimulando a reflexão crítica sobre o acontecimento da arte contemporânea e suas articulações com o espaço público e a sociedade; e outra, o desejo de dar visibilidade ao Arquivo ADOV tendo como ferramenta uma iniciativa artística e crítica.
Acreditamos que o arquivo ADOV configura um protagonismo frente à constituição de arquivos pelo fato de que é organizado por um projeto da própria comunidade (antes denominado Rede Memória da Maré) e nos faz pensar sobre a origem das escritas e das gravações que corroboram na formação de uma história comum. Trabalhar em parceria com um arquivo desta ordem estimula o olhar atento para acontecimentos e embates especiais deste território em combate, social e culturalmente, onde uma guerra civil existe nas entrelinhas de uma nominação que não se deixa fixar. O ADOV estimula, sobretudo, a continuidade do registro de iniciativas culturais, políticas e sociais que devem ser conhecidos por seu potencial político, visto que são ações que interferem diretamente nas condições da vida da comunidade, forçando sua mobilização e tocando a ausência dos poderes públicos no cumprimento de direitos civis. O arquivo aqui se torna uma estratégia de memória muito próxima simultaneamente das histórias pessoais e de uma vida comum afetada por incongruências e forças com as quais se deve compor ou resistir. A potência de um arquivo pode ser o campo aberto de novas escritas críticas, mas é necessário fomentar maneiras de articulá-lo, integrando as lutas políticas ali plasmadas às mobilizações sociais urgentes.
