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de janeiro e agosto de 2009, museu da maré

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DIAGRAMA: FOTOGRAFIA

Além de conceber e realizar o Projeto Arquivos do Presente, estou desenvolvendo uma pesquisa individualmente junto ao Grupo de Pesquisa do qual também fizeram parte Beatriz Lemos e Dirceu Oliveira. Aqui estou postando uma espécie de diário visual desta pesquisa.


DIAGRAMA COLADO NA RUA, RIO DE JANEIRO

Cristina Ribas
Com a participação em algumas manifestações na Maré junto com o Bloco se Benze que Dá e em uma conversa com Olivia, da Ong Bem TV (de Niterói), comecei a tomar conhecimento da produção fotográfica da Maré.  Minha pesquisa junto ao Grupo de Pesquisa em Artes no Projeto Arquivos do Presente se concentrou na produção fotográfica da Maré a partir de indicações de amigos e da realização de conversas informais ou entrevistas com fotógrafos que, depois descobri, são formados pela Escola de Fotógrafos Populares. Na Maré há muitas iniciativas que desenvolvem a linguagem fotográfica como instrumento de registro, criação poética e mobilização da comunidade. Entrei em contato com Davi Marcos, Francisco Valdean, Ratão Diniz e Rosinaldo Lourenço. Simultaneamente Aude Chevalier, uma artista francesa, realizava uma exposição no Centro Cultural da Justiça Federal. Aude acompanhou por mais de um ano o enterro de pessoas (a grande maioria meninos e homens assassinados) por arma de fogo, mortes identificadas pela sigla P.A.F..  Esse se tornou o título do projeto da artista. Aude também foi entrevistada. A convivência com a Maré e as costuras de fatos e políticas de extermínio das quais eu me aproximava pelo cotidiano foram bastante intensas. A pesquisa no Arquivo Dona Orosina Vieira (ADOV) e as conversas com a equipe do Arquivo trouxeram uma outra dimensão desta realidade, talvez histórica. Após alguns meses comecei a organizar as reflexões do que antes era uma espécie de diário disperso de pesquisa. Na exposição final do Projeto Arquivos do Presente entre julho e agosto de 2009 expus esta pesquisa em um canto da sala de exposição, colocando pastas suspensas com as entrevistas e algumas imagens dos fotógrafos. Acima das pastas estavam fotocópias das matérias de jornal que coletei no ADOV e que neste material são citadas pelos títulos e datas (acima).
Jornal
Vasculhando no ADOV selecionei algumas matérias de jornal que apresentam as diversas vozes implicadas nas políticas públicas e nas lutas sociais da Maré e dos espaços de vida caracterizados como “favelas”. No Rio de Janeiro, e assim evidentemente em outros lugares, devemos olhar atentamente para as fontes que produziram e emitiram informações de um acontecimento. A imprensa paga tende a receber releases de informação da polícia diretamente, e não das vozes das comunidades e, por isto podemos nos espantar ao tomar conhecimento de um fato que não aconteceu daquela forma, nem cujas razões foram aquelas explícitas na matéria. Por outro lado, percebi que os jornais de Sindicatos e de comunidades muitas vezes buscam ou recebem informação diretamente dos movimentos sociais ou das associações de moradores e, por isto, produzem uma fala mais crítica em relação à situação atual das favelas e das comunidades no Rio de Janeiro onde existem outros “movimentos”: o tráfico e as milícias.

Fotografia
Há muito tempo eu não olhava tão atentamente para poucas imagens. E por isso foi interessante conversar sobre esse desejo e essa urgência: produzir imagens. Atualmente as imagens respondem muito à produção de um mercado de consumo. A imagem se torna então um dispositivo gratuito de permissividade, e muitas vezes descolado de um contexto de significação por ter que produzir um efeito do desejo de consumo… Fiquei pensando então em como um potencial crítico sobre as imagens emerge apenas quando as contextualizamos, ou seja, quando recolhemos mais informação ao redor das condições de produção das imagens. As fotografias têm à sua forma um transporte, e por que não dizer um tráfico: elas vão longe em diversas mídias (digital, internet, tantas outras) e levam uma informação estrita, algo que precisa ser mostrado. E nesse sentido foi interessante começar a mobilizar imagens e legendas, como as chamadas das matérias de jornal que criam outras imagens, analisando quanto há de uma produção estigmatizada, imposta à realidade social das favelas; e, por outro lado, como se pode pensar a imagem como índice, propondo uma leitura crítica que se informa com a pesquisa. De uma maneira, a imagem pode provar o que aconteceu. E neste caso, na Maré, ela se faz absolutamente necessária como denúncia e como atestado de vida.

Leitura
Ao longo destes meses além das pesquisas no ADOV, três publicações tem me acompanhado e sugiro como leitura para acompanhar este diagrama: o livro “A Câmara Clara”, de Roland Barthes; o livro de prosa “1001 noites no Carandiru” de Franco Terranova; e uma revista publicada pelo Instituto Goethe, Humbolt (no. 98), com uma edição especial “Presença da Morte.” Os livros estavam na exposição para que os visitantes pudessem ler.

Escrita
Em cada entrevista ou conversa com fotógrafos e com amigos, ou a cada vez que eu retomava os trabalhos de pesquisa me vinham muitas sensações e palavras desejando formar textos. A passagem por um território de signos e enunciados pode incitar a formação de textos que contextualizem, que exponham, que protestem. Os escritos de secretos aqui se fazem públicos em fragmentos.  Acima dispus uma lista de “assuntos” anotados nas pesquisas no ADOV e também palavras e sensações a partir das entrevistas e conversas. Na listagem ao centro você encontra as ferramentas de concatenação [FC] do projeto Arquivo de emergência. Caso você queria dar continuidade a esta montagem de imagens, situações e fatos como forma de dialogar, interagir, protestar e tentar  compreender a perplexidade da vida neste contexto de práticas de extermínio por parte do estado, e onde a força das lutas locais não pode ser silenciada, minha sugestão é que você use estas palavras soltas para mobilizar novas escritas.

Ler cada novo livro com aquela memória das conversas e seguir caminhando pelas ruas da Maré com suas mensagens, leituras, imagens na cabeça. Se eu expusesse uma série de imagens, todas todas as imagens que tenho visto, deixaria o outro tonto, assim como eu também eventualmente fico… mas insisto na intenção de deixar que o outro veja o que tem passado pelos meus olhos. (Não sei se como câmera-olho, talvez não.) Ao mesmo tempo que tudo parece estar evidente, não há espaço para o grito direto, e nem as soluções de uma realidade remontada, de uma história tão recente. Não se precisa ir longe ao passado. Aquelas forças que agem provocando contradições e confrontos estão como há 5 ou 10 anos atrás. E podemos medir sua insistência. O aumento de sua força. Minha presença se trata de um começo, e tampouco sei que possibilidade criativa seria também política neste lugar, por que vês, já há tanto para ver. Observo polaridades que não posso tocar.

Veja ao redor, o que lhe mostro é apenas um pedaço de uma realidade múltipla produzida não apenas pelos meus olhos que a percebem, mas pelos corpos de tanta gente inteira e aos pedaços. Subjetivamente aos pedaços. Os corpos sobrevivem às perfurações? Lembro a anotação que fiz para o texto de um amigo, remetendo-me diretamente para a Maré: “lembrar de Epicuro, tudo o que existe além da morte ou do medo da morte.” Então olho ao redor e vejo um senhor que passa com um carrinho de garrafas PET. O pacote sobre o carrinho é imenso, penso logo “é maior que o seu corpo em pé”.

Começaria escrevendo a frase que me veio durante a conversa com o Valdean. Falamos da Clarisse (devo procurar aquele vídeo), do “13º. tiro sou eu, que morri”. Então nos minutos seguintes que ele foi, eu fiquei pensando que escrevo porque posso morrer. E aquela inversão que existe num trecho do livro do Francisco Terranova. O livro trata da chacina do Presídio Carandiru, em 1992. Aquele que mata é ele, depois é você, depois sou eu. Há diversas mortes. Elas são intoleráveis. Inquietantes. Vem de novo e de novo aquelas frases não ditas sem sentido que os falantes e os cadáveres do Colectivo Situaciones há muito vinham me dizer. Um perigo iminente se sente aqui mais de perto do corpo. Não como ficção romântica, mas como aquela mesma imagem da vulnerabilidade dos corpos (que são vivos) que falei no texto sobre o trabalho do Guga. Escrevo não por que temo morrer mas, antes, por que estou viva.

Camuflagem

Reli o pedaço do texto do Derrida: (…) gênero daqueles que têm lugar, por natureza e por educação. Vós sois, pois, ao mesmo tempo filósofos e políticos. (…) estratégia (…) de Sócrates (…) desnorteante (…) enlouquecedora (…) simula colocar-se entre aqueles que simulam (…) pertencer ao genos daqueles cujo genos consiste em simular (…) a pertinência a um lugar e a uma comunidade (…)

DERRIDA, Jacques. Khôra. São Paulo: Papirus, 1995.

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MATÉRIA PUBLICADA EM 1979

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MATÉRIA SOBRE A PRODUÇÃO MUSICAL NA MARÉ, década de 80

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UMA MATÉRIA MUITO BOA DE 1991 QUE ANALISA A PRODUÇÃO EM VHS,

TANTO EM COMUNIDADES COMO NA INVESTIGAÇÃO DA LINGUAGEM DO VIDEO

Mais imagens das caminhadas, visitas, e pesquisas na Maré e no ADOV [link]

Mais imagens do DRIAGRAMA nas ruas do Rio de Janeiro 2009/2010 [link]

Pesquisa apresentada no projeto Ondas Radiofônicas, 2010 [link]

Escrito por azulejista

junho 13, 2009 às 5:44 pm

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